Crônica #2 - Marco Zero
...Quando criança achava que o corte de carne lagarto era carne de um lagartão e que a Belém de Jesus era a Belém do Pará...
Um rio que sobe, água que corre em as pedras. Uma paisagem sem início ou fim, só meio. Um calango na pedra. Quando criança achava que o corte de carne lagarto era carne de um lagartão e que a Belém de Jesus era a Belém do Pará. Achei também que o sanduíche do pit-dog da Praça do Sol Cavalier era de carne de cavalo e que Bernardo Sayão usava uma grande saia preta e que essa era a roupa obrigatória de homens importantes em reuniões oficiais. Mas acho que de todos meus equívocos, o mais marcante era o marco zero.
Eu achava que marco zero não era um lugar ou um conceito, mas um alguém, o Marco, o Marco Zero. Talvez por conhecer um Marco, a quem considerava um tio e que que certa vez me pediu para fazer o pezinho de sua nuca com o Bic amarelo mono-lâmina com o o espelhinho laranja, de costas para o ascendente Rio Araguaia. Eu com onze anos já era uma criança apalavrada. Porém não lembro quando minha capacidade de abstração desfez o homem e formou o conceito, a poeira semi-invisível que paira sobre a rosa dos ventos.
Talvez o marco zero seja o centro "cardeal" da bússola que trago comigo, um início? Sou da estirpe em que a entrada dos caminhos se dão no meio da coisa, como tudo fosse atalho de si próprio, um ponto numa escada de Escher que sai pra entrar no jardim das veredas que se bifurcam. Tenho impressão que a vida serve a um caminho, o dela mesma, sem um sentindo em si mas em sentido a si. Por exemplo, em algum momento eu dava importância demais aos livros e mais ainda às suas capas. Depois os seus miolos, pra no fim sentir a nostalgia de suas lombadas, companheiras que me encaravam. Algum conhecimento já me abarca e eu o uso. Não com um idoso nem com uma criança e nem também com uma mulher, o uso com uma pessoa que é meu clone e que não fala minha língua e mesmo assim me ensina a poesia. E eu rio mesmo sem ter entendido nada.
O marco zero é um lugar? O lugar onde vai o pensamento que toma forma de viagem? A mesa de bar no centro e um copo de cerveja, os pés na areia, uma cachoeira... Ou pode ser uma palavra? Belém, cavalier, saião, todas são caixas a serem abertas, ou peças, ou pedaços de carne a serem martelados sobre o caminho feito de papéis prenhes de letrinhas serifadas que levam a um lugar ou a um tipo de paz no coração. E que a vida, ou melhor, os problemas da vida, parece nos jogar tão longe desse lugar que esse sentido da vida não é senão terminá-la como começamos: pelados, birrentos e espantados. Acho que o capeta, na falta de algo mais sólido, criou os problemas feito animais de estimação, para nos apegarmos a eles e forçando a vida a andar de marcha-ré. Mas não está parado: esse trem vai duas estações pra trás, uma pra frente, três pra trás, cinco pra frente e quando vimos estamos no zero. Ficar no zero é não é exatamente prejuízo àquilo que move. E talvez por isso essa minha insistência com o senhor marco zero: querer saber de onde eu vim pra desbagunçar a cartografia do desejo. Aliás, sobre caminhos e capetas esses dias vi essa: Se não cruzou com o diabo no caminho é que está indo na mesma direção que ele.
Qual é o meu (o seu!) marco zero? Ou qual a sua Belém, o seu Cavalier, o seu saião? O marco zero talvez seja onde o pensamento descansa. Talvez sejam todas as noites de sono verdadeiro. Todos os eu te amo da pessoa amada. Ou toda vez que o coração renuncia ao medo e toda vez que canta a ave do paraíso: seja como for... E eu pensava tudo isso quando acampava com desconhecidos, era noite e sentado à fogueira eu dividia um café borrado maravilhoso de ruim antes mesmo de trocarmos os nomes: e não é que no topo daquela pedra, de frente a boca do panelão, no meio daquela mata bruta que dava para um paredão mais alto ainda, o filha-da-puta não se chamava Marco? Eu gargalhei. O sentido da vida não é senão terminá-la como começamos: sadios, e amados e emocionados.




Lindo texto! Belas ideias colocadas em uma forma interessante e bonita!
Sim, o Marco, sempre pensei que era um cara na dele.
E a saia do Bernardo sempre foi longa e preta, com certeza. (Já vi sua neta várias vezes... e adivinha? Ela sempre ia trabalhar de saia!!)
Você é um super letrista goiano! Parabéns :)