Lambendo feridas
Do outro lado da estrada, debaixo de uma das copas de uma sete copas, com seus folhões que parecem mãos a reterem o sol com as palmas arreganhadas, o gato, depois de mamar próprio o rabo, me diz:
Uma estrada cor de saibro. O carro vencia a poeira como um tanque, ânsia de chegar. Do vale de cores endêmicas revelava-se o destino: da linha de terra avistava-se o fio d’água. A última vez fazia tempo. Nem tão pouco. Tampouco muito. Tudo tão fresco; um sorriso, uma gargalhada. O brilho branco dos dentes mastigando, mastigando. Os pés na água mais fria do mundo, a mão no lugar mais quente do corpo... A água esquentou. Ferveu. As bolhas saltavam da tona, rompiam o menisco. Eram Douradas. Um cardume imenso, raro. Era só jogar a vara. Nem precisava de isca, apenas o brilho do anzol. O reluzente era o último lampejo sublime da efêmera vida nas águas. Tirei das profundezas o meu peso em carne branca. Entre uma margem e outra, havia uma corrente. Era a última salvação antes do mortal encontro das águas. Enquanto enferrujavam, os elos testemunhavam o corre líquido do tempo. Ao chegar ali já não existia mais... Ficara represado nalgum lugar. Os rastros sumiram tal qual o cardume. Não mais se via os lados. O corpo esfriou a carne escurecera. Daquele lugar não sobrara nem a terceira margem. O céu seguro do seu trono testemunhara tudo sem delação. Havia nascido um não lugar. Onde há muita água. Onde os peixes vivem. Mas morrem de sede.
Andando numa avenida com som um sol por cabeça, espero o semáforo fechar pra atravessar fora da faixa e penso nesse trecho retirado da peça de teatro que escrevi dez anos atrás, chamada Terra & Céu. Por algum motivo esse trecho não me desgarrou nesses últimos dias, como se quisesse adentrar nessa publicação.
Na padaria, o café preto no copo americano e escorado no balcão gordurento, rolando a tela do celular como se esperasse a salvação da alma. Essa peça foi escrita quase inteira num celular, dez anos atrás, quando obtive meu primeiro celular inteligente. Esse trecho me ocupou esses dias mesmo ocupado com outras escritas. Talvez pelas imagens que ele evoca - minha vontade de estar com um pescocinho na beira de um corgo… Ou talvez pela vontade que eu tenho de publicá-lo em papel. Te todas as crônicas que escrevi nesses últimos dias, não quis publicar nenhuma delas. E esse trecho se impôs.
De frente pra padaria, passa o gato, que me encara depois de se lamber me querendo dizer algo.
— O problema de ficar (ocupado) lambendo feridas é que você deixa de beijar outras bocas.
E o gato sábio que me persegue saiu correndo em busca do seu pássaro.
Uma amiga que leu o Terra & Céu recentemente me disse:
— Vinícius, não sabia que você era tão romântico.
Aliás, muito_romântico_xande_de_pilares.mp3. Noutras palavras sou muito… A verdade é que Terra & Céu era uma carta de amor para uma pessoa que fui muito apaixonado, escrito anos depois como despedida daquele apego viscoso e disforme que é o último elo do que foi perdido pra sempre. Uma grande lambida nas feridas versão cênico-narrativa. Terra & Céu foi montada por duas amigas, numa tradicional escola de teatro em Santo André (Numa das apresentações a Liniker estava na platéia e se emocionou. Foi o que me contaram.)
Volto andando pra casa fico muito tentando falar sobre meu processo criativo, mas meu espirito é sedento por coisas prontas. Enfiaram tantos processos na gente, que peguei intolerância à essa proteína. Mas das crônicas que escrevi e não quis publicar tinha o futuro, o carnaval. Sobre árvores, gameleiras e flamboyants que vermelham minha alma aos novembros. A missão infantil de trocar notas de cem no centro da cidade e o Ariano Suassuna numa feira do livro em Goiânia em 2004: a jornada e longa e o caminho se faz ao caminhar.
Faz um solão, as ruas tão movimentadas. Talvez seja a tal sede do peixe. Essa sensação de não conseguir morder a realidade, aquele trem de sentir que as coisas estão a um braço de distância, enquanto vestimos luvas de boxe sobre as patas de caranguejo. Bem, tenho o habito de escrever textos longos no celular enquanto atravesso a rodovia.
Do outro lado da estrada, debaixo de uma das copas de uma sete copas, com seus folhões que parecem mãos a reterem o sol com as palmas arreganhadas o gato, depois de mamar o próprio rabo, me diz:
— Tem que aprender é descansar, e não desistir.
Talvez tenha sido isso mesmo, eu só queria falar de amor em sua forma mais poética: amor enquanto torrão-de-açúcar-que-se-dissolve-na-água-sob-a-perplexidade-do-guaxinim.gif
Obrigado pela leitura.
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Beijo do Vinícius Araguaya, vulgo Drama.




Gato sábio
quero ler essa peça. bom demais ler os trem que vc escreve. boaa, Vini.