O controle
"Tive raiva de mim, me odiei. Eu que estava pleno com meu xodózinho de botõezinhos de chiclete cor de azul e no fim, procurando feito doido me encontro nessa empreitada de ter que pular o muro."
Nas próximas semanas, publicarei algumas crônicas que escrevi entre 2019 e 2020, publicadas no internet. Elas datam de um momento de muita confusão, naquele exato momento em que as questões psíquicas se imbricam com os problemas da família, os problemas do país, da política, da existência, o momento a que chamamos de fundo do poço, uma metáfora para seu verdadeiro nome, que é desesperança.
Pra animar as coisas, em 2020 veio aquela coisinha pequenininha chamada pandemia. Nesse momento, eu estava no grupo de pessoas em que a questão não era se adaptar, mas renascer.
Escrevi muito, finalizei pouco. Desse período, entre o parto, a depressão e o puerpério, deu 5 crônicas, 1 conto, 1 roteiro de curta metragem. Escrevi também nesse período, várias versões de outros projetos, mas o mais valioso desse período está nas leituras e anotações que pude me debruçar.
Período de desespero e solidão, indeterminação e caos, que pavimentou esse projeto que você está lendo e seguindo. Mas, ainda sinto a vida como um grande paralisia do sono, quanto mais me debato, mais imóvel fico. Tive que aprender a relaxar, aceitar, respirar e estou nesse momento entre a inspiração e o entendimento das circunstâncias… há, também, algo sobre aceitação… há algo sobre controle.
Boa leitura.
O Controle
O controle da garagem era meu xodózinho. Passei a usá-lo depois que trocaram a chave da portaria. Ganhei minha cópia mas o hábito de usá-lo permaneceu mais forte. Dizem os cientistas que bastam cinquenta e seis dias para se criar um hábito. Não mais que de repente e eu não sei precisar quando e nem como eu perco meu controle. Meu xodozinho, aquele bichinho do tamanho de um chaveiro que fui parir nas eletrônicas da Rua 68, de melhor qualidade, melhor largura de frequências, botõezinhos azuis, tamanho bom de bolso. Esperei mais de semanas o técnico vir configurá-lo.
Que perda, que lástima. Como eu era feliz com meu controlinho. Me permitia cortar um caminho, adentrar o condomínio pelo o toque de um botão. Pois procurei o bicho. No carro, em todos os meandros que nem sabia existir dentro de uma cabine de automóvel. Eu procuro em cima, embaixo do porta-chaves, em cima oratório da santa, em todos os bolsos possíveis.
Me contentei a criar teorias. Como que eu perco o controle, o meu melhor amigo, assim, eu, tão apaixonado e diligente? Pois que raiva. Foi só assumir a chave nova do portão da frente… Pensei que mal não faria colocá-la no meu chaveiro. Uma opção a mais, sendo que ficar de fora do prédio não é opção. Ora entrava pelo portão da garagem com meu controle, ora pelo portãozinho pela chavinha nova. No fim, parece que se confirmam sempre os ditos populares, quem tem dois não tem nenhum. Pois me vi nessa situação de trancar dentro do carro essa chave enquanto procurava o saudoso mecanismo de entrada facilitada, meu controlinho xodozinho.
Tive raiva de mim, me odiei. Eu que estava pleno com meu xodozinho de botõezinhos de chiclete cor de azul e no fim, procurando feito doido me encontro nessa empreitada de ter que pular o muro. Parece que subir foi até fácil, usando o ódio de escadinha. Agora, daqui de cima do muro, tudo parece tão alto e tão perigoso. Espero que os transeuntes me reconheçam, não quero figurar as páginas policias, tô de boa.
Quanto tempo ainda levarei pra descer desse muro? Começo a pensar nesse tal do foco, organização, consciência de um Magaiver sobre a própria vida. Meus bolsos estão vazios e nem documentos eu trouxe, afinal, estava resoluto em procurar pela última vez o controlinho xodozinho.
Ninguém passa nessa rua, ninguém desce desse prédio. Se me poupado da vergonha também privado da ajuda. Pois penso e penso sobre o tal do foco, organização, revejo meus passos de trás pra frente, onde foi que eu errei?! Quero resolver, vou pular! Mas não pulo, se eu me machucar vou ter que ir ao pronto socorro, é domingo, amanhã tem milhão de coisa pra fazer, vou atrapalhar tudo. Lembro que esses dias gastei trezentos reais em pastas organizadores. Coisa urgente. Poxa, trezentos reais e nem as usei. Que lixo de pessoa. Vou colocá-las no meu testamento. Aí que dor, e se eu morrer aqui em cima do muro? Porquê não peguei meus caderninhos que eu queria tanto relê-los, cheio de ideias jovens, porquê não segui minha carreira de músico? Porquê saí daquela sociedade na produtora de filmes? Porquê abandonei meu emprego público em Brasilia? Pra isso? E no fim perder meu xodozinho? Meu atalho sob a sombra da garagem no caminho da padaria da esquina? Preciso aceitar que eu perdi o controle!
No fim, eu fiz aquilo que eu falei para minha amiga ontem não fazer, a gente não pode parar a vida pra resolver nossos problemas, a gente segue e segue resolvendo quando dá, mas não dá pra parar, entende? Fazer a coisa no meio da coisa, em ‘medias res’ como diriam os romanos. Cochilou o cachimbo cai, como diria os goianos.
Nem celular eu trouxe pra chamar os bombeiros. Eu pulo pra fora ou pra dentro? Pra dentro não resolve pois meu apartamento está trancado, e pra fora o meu carro com a chave trancada por dentro. Mas na rua eu posso caminhar e pensar, pensar no quanto eu poderia ter evitado essa situação. Mas pra dentro eu estou seguro pra pensar como eu posso evitar situações futuras.
Mas de qualquer forma eu tenho que descer desse muro, aqui não é lugar de fazer aniversário, e o sol tá pelando. Será que eu já não estou delirando de insolação?
A gente não precisa ter todas as respostas, basta não ficar parado. No caminho a gente resolve. Vou pular sem pensar.
Putaquepariu! Doeu. Agora estou pra fora, sem chave, sem o xodozinho e manco. E puta que pariu, quando me dou conta, uma das porras das portas de trás do carro está aberta, estava todo esse tempo aberta! Mas que merda. Como sou desorganizado se acalma! Eu pego a chavinha do prédio, entro em casa como se nada estivesse acontecido mas não posso esquecer que algo aconteceu, e o aprendizado? Eu passo arnica na canela e pego meu caderninho. Vou morrer mesmo então eu vou fazer aquilo que eu preciso fazer organizar meus caderninhos nos trezentos reais de pasta. E sabe o que está escrito na primeira página do meu caderno?
Eu desço de novo agora é a hora. Sem ficar preso por dentro ou por fora e sem o topo do muro. Meu carro surge como um antagonista monstruoso. Ele rosna pra mim tal Christine o carro assassino. Seus faróis altos me cegam mas eu o encaro, com a lanterninha do celular eu o revolvo suas entranhas até fazer a transmissão e as rodas de retrovisores, o porta-mala de para brisa e os bancos de motor e o bloco de escapamento. E pasmo. Pasmo. Eu acho o meu xodozim!
Nunca vou te abandonar, eu digo a ele. Será você o único e sem você fico de fora mas não carrego aquela chavinha que me tranca num relacionamento tóxico. O mais impressionante é que o controle buscado, que sejamos justos, não estava nos lugares comuns onde se deixa a carteira, o celular, o isqueiro e o cigarro. Ele estava no banco do condutor, no meu banco, todo pavãozinho ainda que semi oculto numa fresta entre o estofado e o cinto de segurança. O tempo inteiro, de costas, camuflado onde seus botõezinhos azuis não pudessem puxar meus olhos. O tempo inteiro e eu sentado na solução da minha quase vida no muro e quase morte no abismo.
Sim. Estou feliz. A vida não é pra principiantes. Mas não consigo esconder dos vizinhos que meu carro jaz desmontado no meio da avenida e a polícia e os bombeiros já fecham as ruas contíguas, guardas de trânsito já se prontificam a conduzir o público engavetado e enfurecido de fim de expediente de segunda feira. O buzinaço é ensurdecedor e eu não consigo esconder dos meus vizinhos minha tapera escanchelada e eu não faço ideia de como juntar todas as peças espalhadas. Por acaso você teria algum manual aí pra me emprestar?
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(Escrito em setembro de 2019, publicado no Medium em junho de 2020.)
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Muito obrigado pelos parabéns de aniversário
Feliz natal, procêis!
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