O Marginal Botafogo
30 anos do assassinato do meu pai.
No conturbado trânsito da marginal em chuvas, aniversário da cidade; parado sobre a fonte de vida de uma civilização originária, ou a fonte de renda da humilde lavadeira do passado, ou o tesão de maloqueiros enamorados e pescadores, ou apenas o deleite do banho do bebê. Simplesmente, o Córrego Botafogo. Sobre suas águas embalsamadas me pergunto, curiosidade mesmo: de qual fonte brotaram as águas do meu, ou do seu, primeiro gole? Bem, a fonte do meu não lembro, mas a do meu pai eu sei. Esse, o mais famoso veio d’água da capital de Goiás. Cresci sob ele, já meu pai, dentro dele. Era conhecido como seu surfista, o ‘surfista do Botafogo’. Morou até o fim de sua juventude ali na beira, no número 202 da rua principal da vila do IAPC, um dos primeiros conjuntos habitacionais de Goiânia. Nessa vila moraram do meu bisavô aos meus irmãos, todos faziam tudo no córrego, menos minha geração, reservada apenas a contemplá-lo. Em obras.
O Córrego Botafogo, canalizado e transformado em marginal no ano de 1992, obra com pompas modernizadoras. O primeiro trecho, diminuto, corria da Avenida Independência ao CEPAL do Setor Sul. O córgo, em nosso dialeto caipira, passava na rua de trás da casa onde meu pai nasceu e morou até os 27. Saiu, foi ser garimpeiro, vendedor, agricultor, criador de animais - de rãs a cães, etc. Teve três filhos. Sonhava em regressar à sua nascente, queria fornecer à sua prole o privilégio daquela casa e daquelas águas. Assim o fez, mas o rio já estava em processo de ‘marginalização’. Viveria apenas 8 anos da sua vida longe do córrego.
Ao lado dele assisti uma enchente em 94. A ideia era estrear os novos estilingues de sua lavra, atirando pedras nos ‘guard rails’ da moderna via expressa. No canal-córrego, nem sinal dos metais, estavam sob a corrente revolta. Mirávamos aquela besta hídrica, mítica, querendo vencer a opressão das margens pétreas dos arrimos, como fera enclausurada na esquina entre a vida e a morte. Impressionava a revolta das labaredas d’água, a pressão do volume vivo. Eis, diante dos meus olhos, algo que à altura dos meus 6 anos só poderia me sentir importante; estávamos diante de um lendário Elemental, a famosa ‘tromba d’água’. E no meu quintal! Orgulho do nosso córrego, que de corguim não tinha nada; uma verdadeira potência engolidora de pontes.
As águas rolaram e o triunfal retorno do surfista do Botafogo à sua nascente se mostrou trágico. Meu pai morreu dois anos depois, na esquininha do córgo, assassinado por um grupo de homens. Pereceu na tentativa de acudir uma vítima de assalto. Eram onze horas da noite e oito anos de idade, gritos, latidos, luzes se acendendo. Barulho de chuva nas telhas. Fugiram pela marginal, se esconderam no canal, onde o esgotocórrego escoa pelo concreto da superpopulosa capital, campeã da pior distribuição de renda do continente. O céu chorara madrugada adentro suas violentas águas de janeiro. Mãe viúva, três crianças, mudamos dali a toque de caixa. De herança viva ficou, na frente da casa, uma mangueira. Ele me chamou, pegou na minha mão e mergulhamos o caroço juntos, afundo na terra. Às vezes receio ser mentira, memória inventada pelo trauma. Mas eu lembro sim! Como se fosse ontem. Ela está lá, a vejo de longe daqui. Dizem que sou parecido com ele. É que o fruto nunca cai longe da árvore.
Já pensou nas sementes que brotam frondosos troncos e copas que cercam um olho d’agua? Tal Buritis, recebem em troca de proteção mais água, diretim da fonte, e crescem mais e mais, viram sentinelas: quanto mais água, mais crescem, quanto mais se enraízam mais protegem a nascente, ajudam a infiltrar água no solo, resguardam os barrancos das voçorocas. É um pacto natural. Talvez por isso, meu pai, uma sentinela do NBotafogo, jovem de 38 anos, tenha morrido tão pouco tempo depois da marginalização do rio, da interrupção do fluxo das suas águas. Quer dizer, no concreto a água corre, mas já não penetra no solo.
Meu pai amava seu corguinho, seus filhos, sua cidade. Me atento agora à poesia melancólica de ter nascido e morrido na mesma casa, na mesma esquina dos seus sonhos de infância, de frente às águas que primeiro lhe nutriram e que coletaram o misto de chuva, sangue e sabão na manhã seguinte ao seu destino. Do lado do seu jazigo num cemitério da cidade, vê-se um estuário do córrego Botafogo se encontrando com um de seus afluentes que beija o terreno fúnebre. Nascimento, vida, morte e eternidade banhados pela mesma corrente. Alguém buzina e a correnteza de carros avança para trás.
Vejo na altura da vila em frente a casa, um prédio novinho, de torre alta e estilo genérico. “Quanto será que custa o apartamento?”, me questiono. É o primeiro da região, em frente ao (ou ‘à’) Botafogo. Provavelmente não o último. Será que os novos moradores iriam gostar dessa crônica? Quando se narra a cidade, o poema privado se torna patrimônio público? A cidade é menos minha por não ter nenhuma propriedade em meu nome? Eu quero lembrar ou esquecer dessa vila? Narrar o espaço é uma forma de ocupá-lo? Enquanto o dinheiro não vem pra comprar, reformar, manter, abrir os espaços, a gente os canta, os celebra. Tal qual a proteção das árvores sentinelas, conservar as histórias da nossa cidade cria uma espécie de vereda poética, previnem o assoreamento moral duma era sem memória. Ó deus, ou dai-me dinheiro ou tira-me essa vontade de consertar a cidade, de desapropriar a força as nascentes dos nossos rios e córregos e devolvê-las a população, seus únicos herdeiros. Sinal abre. Buzinaço instantâneo.
Deito o cabelo pela Marginal, pelo excórrego. Se o Botafogo está na bandeira de Goiânia, seu surfista no meu coração. Enquanto memória, ele e sua ‘roça asfaltada’ são indissociáveis. Talvez inconscientemente ache que ela, a cidade, o tenha tirado de mim, que sem a canalização os assassinos não teriam ido beirar nossa freguesia: vila isolada que o progresso transformou em rota de trânsito. Pensamentos não alteram em nada o sentido da correnteza. No fim, Goiânia é tipo uma fruta ‘de vez’, arrancada dum pomar marginalizado, banhado por nascentes privatizadas. Uma cidade que ainda não madurou, quase verde, com arestas, dura, amarga, adstringente. Às vezes bem azeda. Mas não, não está ruim. Tá ‘de veiz’. Talvez tenha um dos lados amassados, ou cheio de bicho, ‘imprópria para o consumo’?, ainda assim me nutre com experiências, me consola com sua sombra de mangueira-sentinela, me acalenta com lembranças, me orienta; minha fonte de inspiração, a fonte do meu primeiro gole e do último meu último grito no trânsito canalizado: eu sou o ‘marginal Botafogo!
Goiânia, 24 de outubro de 2019.
Escrevi o texto acima para um concurso de crônicas do SESI-GO em 2019. O texto ficou engavetado até então e resolvi publicá-lo hoje, 22 de janeiro de 2026, 30 anos da noite do assassinato do meu pai.
Por mais duro que seja o texto, escrevê-lo em 2019 num momento de depressão e desespero foi um verdadeiro rito de passagem, de um estado de passividade e convulsão, à ação pela escrita e a organização pela literatura.
Enquanto forma, não alcancei a crônica que eu queria à época, tá mais pra uma ‘aguda’. Mas serviu à tentativa de escrever algo que já fosse literatura.
Obrigado pela leitura!
Ótimo 2026 pra a gente.






Choro de acalmar o coração, passei o dia procurando vazão de rio pro meu peito, assim de final... achei
Vini, assim como o Igor diz no vídeo abaixo, você transformou seu pai, num pai eterno.
https://www.youtube.com/watch?v=4rMIKfYZqgs